Em tempo mais
passados havia um fenómeno, que neste momento está a
desaparecer, chamado Futebol de Rua, em que os intervinientes
evoluiam aí o seu futebol. Como afirma Scagalia (2003)
“As acções adaptativas –
soluções do problema do jogo – decorrentes de
situações exigidas, tanto dos inumeros jogos de bola
com os pés, transitam de uns para os outros que por sua vez
resultam em modificações no todo”. Aqui este
autor quer dizer que os vários jogos jogados com os
pés levam a modificações na sua
execução, no seu todo, por isso quanto maior for a
prática de rua de jogos ou brincadeiras com os pés
mais evolução vai haver. Aqui vê-se bem como o
pequeno influência a alteração do todo, sendo
este mais pequeno que vai influenciar, em grande parte o
todo.
A grande
maioria do jogadores que hoje estão a jogar no top, ou que
já passaram por aí “passaram pela rua ainda
antes de integrar os escalões de infantis, iniciados ou
juvenis” (Fonseca, 2006)
“Foi
através do Futebol de rua que todos os jogadores da
Selecção Nacional portuguesa se iniciaram
no Futebol.”.
(Aurélio
Pereira – responsável pelo gabinete de
recrutamento/detecção de talentos do Sporting, 2004
citado por Fonseca, 2006)
“Os meus
primeiros jogos tiveram lugar no prestigiado estádio da rua
Rubens Arredo: «balizas» feitas com sapatos velhos, em
cada uma das extremidades – uma onde a rua terminasse num
“beco” sem saída e a outra onde se cruzava com a
rua Sete de Setembro; as linhas laterais eram mais ou menos onde as
casas começavam de cada lado. Mas para mim era como se fosse
o Maracaná, e foi o local onde comecei a desenvolver as
minhas aptidões.”. (Pelé,
2006, citado por Fonseca, 2006)
“No meu
bairro em Porto Alegre passei a infância a jogar à
bola. Nunca me separava da bola, driblava, driblava, driblava sem
parar. Jogava na rua com os meus colegas, mas também jogava
horas sozinho ou com o meu cão, o “Bombom”, que
era incansável. Com ele,
tentei todas as fintas possíveis, para evitar que ele
trincasse a bola, com excepção do
“túnel”, porque o “Bombom” tinha as
patas curtas. (Ronaldinho
Gaúcho 2005, citado por Fonseca 2006).
“Nunca
fui de exigir muito. Só precisava mesmo era de uma bola e de
autorização dos meus pais para andar na rua. Adorava
jogar na rua, de preferência…
descalço”! (Deco 2003,
citado por Fonseca 2006).
“Sem
dúvida que uma das razões para a falta de qualidade
técnica de muitos
jogadores,
é resultado do lugar onde esses jovens aprenderam a jogar
Futebol.
No meu tempo, a
academia mais popular para descobrir os segredos
deste
desporto era a
rua.”. (John Cruyff,
2002).
“A
tecnologia de ponta do Futebol é a rua e a miséria.
Numa partida improvisada, de imediato alguém inventa algo.
No meio desse combate de pés descalços, um jogador
que possa não ser muito alto (Salas), nem muito
forte (Arellano), nem
muito rápido (Gallardo), soluciona um problema de forma
original. Com uma recepção e um toque três
adversários são ultrapassados (…) O jogador
não usa o catálogo de soluções
conhecidas, cria.”. (Jorge
Valdano, 2002, citado por Fonseca, 2006).
“Jogávamos
sempre à volta da minha casa, em “Las Siete
Canchitas”. Era um descampado enorme com vários
campos. Uns tinham balizas e outros não. “Las Siete
Canchitas” era como um desses centros desportivos com relva
sintética e tudo! Não tinha relva nem
sintéticos, mas era para nós uma maravilha. Era de
terra, de terra bem pura. Quando começávamos a
correr, levantava-se tanto pó que parecia que
estávamos a jogar em Wembley e com
neblina.” (Diego
Maradona, 2001, citado por Fonseca, 2006)
“Foi
aí (no Futebol de Rua) que comecei a ser
Homem” (Caetano,
citado por Cardoso, 1995)
“O jeito
também se ganha. É na rua que se desenvolve o gosto
pelo jogar futebol, com as horas que aí se passam a jogar.
Através do gosto vamos melhorar as nossas capacidades, pois
ele leva-nos a repartir essas coisas muitas vezes e assim a
melhorá-las.” (Marcelo,
citado por Cardoso, 1995)
“Era na
rua que tentávamos ser melhor que os outros, melhorando dia
a dia na competição que aí havia. Ali vamos
melhorando instintivamente coisas que mais tarde vão ser
importantes na nossa carreira.” (Domingos,
citado por Cardoso, 1995)
Como se pode
ver, vários jogadores e de vários níveis,
todos referem o Futebol de Rua foi determinante na
evolução, não só como futebolista, como
de pessoa.
O Futebol de
Rua tinha um aspecto fundamental: “o tempo livre” e o
“prazer que os miúdos tinham em jogar”. Sim,
não é por acaso que o Pelé dizia que ele foi o
melhor do mundo porque a rua dele tinha mais buracos, ele e muitos
mais, todos nós, jogamos horas a fio por prazer, criando um
jogo equilibrado (tinha de dar luta), estimulando a
competitividade, os vários tipos de piso (desde o paralelo
à terá, passando por alguns jardins…
Tínhamos contactos diferentes com a bola! Assim
proporciona-se uma prática com dificuldade mas muita
estimulação de coordenação…
Talvez como Marisa Gomes (2007, citada por Frade, 2007) afirma:
“nos sintéticos, os miúdos atiram-se para o
chão e não sentem a dificuldade ou o
desequilíbrio em si na rua é totalmente
diferente!”. Nesta prática existe muita diversidade,
jogando todos os dias, a todas a horas, com equipas diferentes
(não há aquele hábito de conhecer todos os
companheiros), todos querem ser melhores e ser melhor que o melhor
da rua, é uma questão de afirmação. E
também, como Queiroz (1983) afirma que é importante
colocar a forma competitiva nos exercícios. Estas ideias
vão ao encontro do que Michels (2001) afirma que “O
Futebol de Rua é o sistema educacional mais natural que pode
ser encontrado. Se analisarmos o Futebol de Rua concluiremos que a
sua força reside no facto de se jogar diariamente de uma
forma competitiva, com uma preferência para se jogar em todos
os tipos de terreos, normalmente em grupos pequenos. No Futebol de
Rua raramente vemos os jovens a praticar os gestos técnicos
de uma forma isolada.”
Excelente
artigo publicado no blogue "http://formacaonofutebol.blogspot.com
/"
que nos faz reflectir nas atitudes irreflectidas dos Homens que
retiraram a liberdade às
crianças.
Infelizmente
os meus filhos não poderão ser a criança livre
que eu fui, infelizmente não poderão jogar á
bola na rua, andar de bicicleta na rua, brincar na rua, etc, isto
porque o clima de insegurança instala-se de imediato e
nós pais ou estamos presentes ou então preferimos
mantê-los dentro de casa com as consequências que
daí advêm como muito bem dito pela Alice Vieira
no
Jornal de Noticias de 30-03-2008
:
"Há
anos que as nossas crianças são educadas por
ecrãs."
Publicado
por António