Página Inicial Data de criação : 08/03/02 Última actualização : 08/10/26 13:25 / 58 Artigos publicados

Futebol de Rua. Que Influências na formação?  (Formação) Inserido Wednesday 30 April 2008 17:15

Em tempo mais passados havia um fenómeno, que neste momento está a desaparecer, chamado Futebol de Rua, em que os intervinientes evoluiam aí o seu futebol. Como afirma Scagalia (2003) “As acções adaptativas – soluções do problema do jogo – decorrentes de situações exigidas, tanto dos inumeros jogos de bola com os pés, transitam de uns para os outros que por sua vez resultam em modificações no todo”. Aqui este autor quer dizer que os vários jogos jogados com os pés levam a modificações na sua execução, no seu todo, por isso quanto maior for a prática de rua de jogos ou brincadeiras com os pés mais evolução vai haver. Aqui vê-se bem como o pequeno influência a alteração do todo, sendo este mais pequeno que vai influenciar, em grande parte o todo.

A grande maioria do jogadores que hoje estão a jogar no top, ou que já passaram por aí “passaram pela rua ainda antes de integrar os escalões de infantis, iniciados ou juvenis” (Fonseca, 2006)

  “Foi através do Futebol de rua que todos os jogadores da Selecção Nacional portuguesa se iniciaram no Futebol.”. (Aurélio Pereira – responsável pelo gabinete de recrutamento/detecção de talentos do Sporting, 2004 citado por Fonseca, 2006)

  “Os meus primeiros jogos tiveram lugar no prestigiado estádio da rua Rubens Arredo: «balizas» feitas com sapatos velhos, em cada uma das extremidades – uma onde a rua terminasse num “beco” sem saída e a outra onde se cruzava com a rua Sete de Setembro; as linhas laterais eram mais ou menos onde as casas começavam de cada lado. Mas para mim era como se fosse o Maracaná, e foi o local onde comecei a desenvolver as minhas aptidões.”. (Pelé, 2006, citado por Fonseca, 2006)

“No meu bairro em Porto Alegre passei a infância a jogar à bola. Nunca me separava da bola, driblava, driblava, driblava sem parar. Jogava na rua com os meus colegas, mas também jogava horas sozinho ou com o meu cão, o “Bombom”, que era incansável. Com ele, tentei todas as fintas possíveis, para evitar que ele trincasse a bola, com excepção do “túnel”, porque o “Bombom” tinha as patas curtas. (Ronaldinho Gaúcho 2005, citado por Fonseca 2006).

  “Nunca fui de exigir muito. Só precisava mesmo era de uma bola e de autorização dos meus pais para andar na rua. Adorava jogar na rua, de preferência… descalço”! (Deco 2003, citado por Fonseca 2006).

  “Sem dúvida que uma das razões para a falta de qualidade técnica de muitos

jogadores, é resultado do lugar onde esses jovens aprenderam a jogar Futebol.

No meu tempo, a academia mais popular para descobrir os segredos deste

desporto era a rua.”. (John Cruyff, 2002).

  “A tecnologia de ponta do Futebol é a rua e a miséria. Numa partida improvisada, de imediato alguém inventa algo. No meio desse combate de pés descalços, um jogador que possa não ser muito alto (Salas), nem muito forte (Arellano), nem muito rápido (Gallardo), soluciona um problema de forma original. Com uma recepção e um toque três adversários são ultrapassados (…) O jogador não usa o catálogo de soluções conhecidas, cria.”. (Jorge Valdano, 2002, citado por Fonseca, 2006).

  “Jogávamos sempre à volta da minha casa, em “Las Siete Canchitas”. Era um descampado enorme com vários campos. Uns tinham balizas e outros não. “Las Siete Canchitas” era como um desses centros desportivos com relva sintética e tudo! Não tinha relva nem sintéticos, mas era para nós uma maravilha. Era de terra, de terra bem pura. Quando começávamos a correr, levantava-se tanto pó que parecia que estávamos a jogar em Wembley e com neblina.” (Diego Maradona, 2001, citado por Fonseca, 2006)

  “Foi aí (no Futebol de Rua) que comecei a ser Homem” (Caetano, citado por Cardoso, 1995)

“O jeito também se ganha. É na rua que se desenvolve o gosto pelo jogar futebol, com as horas que aí se passam a jogar. Através do gosto vamos melhorar as nossas capacidades, pois ele leva-nos a repartir essas coisas muitas vezes e assim a melhorá-las.” (Marcelo, citado por Cardoso, 1995)

  “Era na rua que tentávamos ser melhor que os outros, melhorando dia a dia na competição que aí havia. Ali vamos melhorando instintivamente coisas que mais tarde vão ser importantes na nossa carreira.” (Domingos, citado por Cardoso, 1995)

  Como se pode ver, vários jogadores e de vários níveis, todos referem o Futebol de Rua foi determinante na evolução, não só como futebolista, como de pessoa.

O Futebol de Rua tinha um aspecto fundamental: “o tempo livre” e o “prazer que os miúdos tinham em jogar”. Sim, não é por acaso que o Pelé dizia que ele foi o melhor do mundo porque a rua dele tinha mais buracos, ele e muitos mais, todos nós, jogamos horas a fio por prazer, criando um jogo equilibrado (tinha de dar luta), estimulando a competitividade, os vários tipos de piso (desde o paralelo à terá, passando por alguns jardins… Tínhamos contactos diferentes com a bola! Assim proporciona-se uma prática com dificuldade mas muita estimulação de coordenação… Talvez como Marisa Gomes (2007, citada por Frade, 2007) afirma: “nos sintéticos, os miúdos atiram-se para o chão e não sentem a dificuldade ou o desequilíbrio em si na rua é totalmente diferente!”. Nesta prática existe muita diversidade, jogando todos os dias, a todas a horas, com equipas diferentes (não há aquele hábito de conhecer todos os companheiros), todos querem ser melhores e ser melhor que o melhor da rua, é uma questão de afirmação. E também, como Queiroz (1983) afirma que é importante colocar a forma competitiva nos exercícios. Estas ideias vão ao encontro do que Michels (2001) afirma que “O Futebol de Rua é o sistema educacional mais natural que pode ser encontrado. Se analisarmos o Futebol de Rua concluiremos que a sua força reside no facto de se jogar diariamente de uma forma competitiva, com uma preferência para se jogar em todos os tipos de terreos, normalmente em grupos pequenos. No Futebol de Rua raramente vemos os jovens a praticar os gestos técnicos de uma forma isolada.”

Excelente artigo publicado no blogue "http://formacaonofutebol.blogspot.com /" que nos faz reflectir nas atitudes irreflectidas dos Homens que retiraram a liberdade às crianças.

Infelizmente os meus filhos não poderão ser a criança livre que eu fui, infelizmente não poderão jogar á bola na rua, andar de bicicleta na rua, brincar na rua, etc, isto porque o clima de insegurança instala-se de imediato e nós pais ou estamos presentes ou então preferimos mantê-los dentro de casa com as consequências que daí advêm como muito bem dito pela Alice Vieira no Jornal de Noticias de 30-03-2008 :  "Há anos que as nossas crianças são educadas por ecrãs."

 Publicado por António

Adicione um comentário !

Os seus dados (Facultativo) :

error

Atenção, os comentários insultuosos, racistas, etc. são proibidos neste site.
Se alguma queixa for apresentada, utilizaremos o seu IP (38.103.63.59) para o identificar.

Nenhum comentário
Futebol de Rua. Que Influências na formação?